Aprenda a dançar

Qual é o seu Padrão de Qualidade na Dança do Ventre?

Qual é o seu padrão de qualidade na Dança do Ventre?

Sim, eu falei PADRÃO, essa palavra que é considerada quase uma maldição no meio, mas independentemente de qualquer coisa o fato é que todos nós temos um padrão de qualidade pessoal.

E é esse padrão que influencia na maneira como julgamos o que é bonito, aceitável e correto em nossas vivências.

Assim, cada um de nós tem uma maneira de enxergar situações na vida e qualifica-las de acordo com nossos gostos, experiências e até mesmo pela nossa formação mediante o que absorvemos seja na vida em sociedade ou com a nossa família.

E na dança a coisa não é diferente, eu por exemplo, tive uma formação belly dance fortemente voltada para não vulgarização, em outras palavras para dançar sempre primando pela elegância feminina e para a defesa extrema da dança do ventre como arte e não entretenimento masculino.

Dessa forma até hoje eu procuro isso nas performances em que assisto, quando vejo uma dançarina se apresentando como se fosse uma stripper, fazendo caras e bocas com jeito de quem tá querendo, devo confessar que meu estômago revira.

 

 

Já a minha colega, Zoraide (nome fictício) teve uma formação voltada para a liberdade, para expressão de todas as nuances da feminilidade, não importa se é escandalosa, sensual, ou contida o que importa é a liberdade de ser mulher e assim poder expressar sua natureza por meio da dança sem se aprisionar a conceitos e preconceitos de quem quer que seja.

E foi por isso que uma vez a gente travou um debate acirrado por conta de uma performance em que determinada bailarina dançava derbake de mini saia e salto alto, e enquanto eu condenava ela defendia.

Depois de muita conversa e reflexão chegamos à conclusão que tínhamos padrões de qualidade com critérios do que é bonito, feio e correto bem diferentes uma da outra.

A partir de então ficou claro para nós que existem diferentes maneiras de enxergar e viver a arte. E que a dança do ventre pode ter os mais distintos significados dependendo de como é interpretada.

E é assim, mediante intensas diferenças que cada um vai criando seu próprio padrão de qualidade no que tange ao que é bonito e aceitável em uma performance belly dance.

Até aí tudo bem, afinal, esse é um processo natural  já que até para apontar o que é uma comida boa e uma ruim nós estabelecemos padrões pessoais.

E qual é o problema nisso  quando falamos de Dança do Ventre?

O problema é que muitas vezes tentamos moldar os outros segundo nosso padrão de qualidade, impondo nossos gostos e preferências na dança alheia.

O problema é que a maioria de nós tem dificuldade de aceitar, respeitar e compreender o modo de ver, viver, sentir e dançar dos outros por conta do nosso próprio padrão.

O problema é que movidos pelo nosso próprio padrão passamos a criticar, condenar e excluir quem dança diferente do que nós gostamos de ver. 

E embolados nesse caos sentimos sérias dificuldade em reconhecer que nem toda bailarina se expressará com sua dança da maneira que desejamos ou consideramos correto e bonito.

Mas aí você também pode questionar, e quanto aos padrões que devemos seguir pois representam determinada cultura? Toda dançarina do ventre não deveria levar à risca?

Eu acredito que sim, mas há quem pense que não pelo fato de que o mundo está em constante evolução e a dança é uma expressão social que acompanha essa evolução.

Por exemplo, se em determinado período era só homem que dançava dabke, na atualidade a mulher também dança, portanto, modificações nos padrões recebem as mais diversas influencias podem ocorrer até mesmo novas criações dentro do que já existe e estabelecer-se novos padrões.

E aí a gente volta a falar que a maneira com que vamos reger a dança em nossa vida vai depender da formação e da visão que cada um tem sobre os mais diversos aspectos que engloba essa arte.

Agora vamos voltar ao foco desse artigo aqui que são os padrões pessoais, ou seja, aqueles particulares de cada um de nós e que as vezes tentamos impor aos outros.

O motivo que me fez trazer esse assunto a tona é que vejo nas redes sociais bailarinas que atiram pedras quando alguém estipula selos e padrões para cursos, concursos e etc; mas não pensam duas vezes em tentar padronizar e colocar seus gostos pessoais nas performances de dança alheia tentando engessar o outro no que consideram correto.

Se é uma bailarina dançando na velocidade da luz a mesma é metralhada com um sonoro “Que horror, parece uma louca, onde está a suavidade, a delicadeza a feminilidade? ”.

Se é uma bailarina pirando no bate cabelo, “Nossa parece que está com o capeta no couro, isso não é dança do ventre isso é marmota.

Enfim, são inúmeros os posicionamentos e padrões do que é certo e errado.

Muito esquecem que ter um padrão pessoal de qualidade é natural e é direito nosso, mas não nos dá o direito de condenar e criticar de maneira depreciativa a ninguém, principalmente quando se trata de expressão por meio da arte.

Até porque quando se trata de arte existe a expressividade que é um elemento único, algo que transcende qualquer tipo de padrão, isso nasce de cada um e por isso é dotado de subjetividades as quais não podemos de forma alguma obrigar que sigam as nossas preferências pessoais.

Veja, o problema não é você não gostar de determinada performance ou estilo, o problema é julgar e por vezes condenar a forma de uma bailarina expor sua arte por conta dos seus próprios gostos pessoais muitas vezes sem nem ao menos ter o cuidado em como você expõe sua opinião.

É necessário ter em mente que da mesma forma que nossa dança não é obrigada a se encaixar no que outros esperam, a dança dos outros também não é obrigada a se encaixar nas nossas expectativas, mas todos devemos agir com ética e ter empatia com os colegas.

E tem mais, embora a dança do ventre possua seus fundamentos e suas características próprias dentro de um contexto cultural, não existe um protocolo, ou uma lei ditatorial que nos obrigue e exija que dancemos de uma única maneira de acordo com o que alguém venha estipular e considerar o correto.

Existe sim, os movimentos, as técnicas, e toda uma linguagem própria da dança, mas não para nos aprisionar e sim para servir de base, de modo que venhamos a encontrar quem somos dentro do que a dança nos ensina.

Por exemplo, a dança tem as oito maias que é igual no mundo todo, mas tem bailarina que gosta de fazer ele pequeno, outra que adora a velocidade, e até tem quem não goste de fazer, ou seja, cada dançarina tem sua própria maneira de ser e sentir, desenhar e usar os movimentos.

Além disso, outros fatores vão influenciar no estilo de cada um, como por exemplo a nossa própria cultura, as bailarinas que estudamos, os vídeos que assistimos e etc.

É impossível que todo mundo dance igualzinho, e quem tentar encaixar sua dança nas expectativas e idealizações alheias está aprisionando seus movimentos, gestuais e emoções em uma redoma cruel de ansiedades e frustrações, correndo o risco de se perder em um mundo que é repleto de padrões diferentes onde é impossível agradar a todos.

Dessa forma, somos muito mais felizes quando entendemos qual é o nosso padrão pessoal e não obrigamos ninguém a seguir, sendo inclusive respeitosas e compreensivas com a escolha do outro, e vai por mim, agir assim evita um monte de dor de cabeça e desentendimentos desnecessários.

E é por essas e outras que eu sempre digo que somos mais felizes ainda com a dança quando nos libertamos do julgamento do mundo, e quando entendemos a diferença entre a dança que eu quero ter e a dança que o mundo quer que eu tenha.

Bom vou ficando por aqui, muito obrigada pela companhia, bellybeijos e até nossa próxima bellyaventura.